Mário Lopes

Mário Lopes

Qual a importância dos aromas, perfumes e cheiros nas nossas vidas? O que pode revelar o sentido menos conhecido?

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Há maus cheiros?

Será que existem cheiros ou perfumes maus?

Não, não existem cheiros maus. O que é um mau cheiro para alguns não o é  para outros, seja por uma questão de apuro olfativo, seja por uma questão de educação.

A prova que não há maus cheiros

Para grande pena das forças policiais dos Estados Unidos não é possível substituir o gás lacrimogéneo, usado para dispersar multidões, por cheiros que possam ter o mesmo efeito. De facto, foram testados cheiros terríveis um dos quais o famoso cheiro a latrina do exército dos Estados Unidos infelizmente sem sucesso. Há sempre alguém que aprecia os cheiros por muito maus que para outros sejam.

Porquê substituir o gás lacrimogéneo?

Foram feitos vários testes pela polícia dos Estados Unidos para acabar com o gás lacrimogéneo. Isto é importante num país que proíbe a queima de folhas de jardim porque descobriu que existe um componente libertado nesta queima que faz mal à saúde, ou que testa os carros da Volkswagem até descobrir que o milagre de engenharia em termos de poluição era final um circuito electrónico/informático que fazia batota e baralhava os fumos libertados. Um país assim tem todo o interesse legítimo em substituir o gás lacrimogéneo que é agressivo para a saúde humana.

A esperteza alemã:

Ainda no caso da Volkswagen, os alemães foram tão espertos que o sistema concebido para adulterar os valores dos gases libertados pelos seus carros foi de tal maneira feito que só funcionava se o volante fosse mexido, ou seja…  qualquer país mais preguiçoso que não fosse com o carro para a rua nunca descobriria que o sistema estava adulterado. A persistência dos técnicos americanos fez com que construíssem uma padiola onde colocaram o medidor de fumos e foram mesmo com o carro para a estrada.   

Portanto o leitor entenda que o interesse em substituir o gás lacrimogéneo é muito grande e a melhor opção, a que menos mal faria seria um cheiro de tal maneira mau que obrigasse as pessoas a dispersar, não resultou. E porquê?

Porque não há maus cheiros?

Acreditamos que uma razão principal é uma razão cultural. Por exemplo: os japoneses não suportam o cheiro do queijo, que nós europeus gostamos, mas o seu pequeno almoço é constituído por um prato de soja fermentada de nome natto que cheira a borracha queimada e portanto intolerável para nós. Os japoneses pela sua recusa em comer leite e seus derivados também são conhecidos por não terem cheiro. Mais se diz que no exército japonês era motivo de exclusão o cheiro da transpiração.

Também o fruto durião, também conhecido  como jaca, que se encontra no Sudoeste asiático é uma delícia local, mas quando os ocidentais a cheiram sentem-se repugnados. Em A Natural History of Senses Diana Ackerman descreveu o aroma do durião como um cruzamento entre o esgoto e uma sepultura, no entanto milhares de pessoas consomem-no diariamente e gostam.

As condições de vida como parte da tolerância aos cheiros

Também para quem foi habituado a viver num meio com regras de higiene um pouco duvidosas certamente o terrível cheiro das latrinas do exército dos Estados Unidos não será uma coisa muito dissuasora. Por exemplo, foi notícia na revista Sábado do início do ano de 2018 que uma indiana pediu a separação do seu marido em tribunal porque este não considerava necessário a construção de uma casa de banho.

A higiene das mulheres na Índia

Expliquemos como as coisas, em termos de higiene, se passam na Índia ainda segundo a revista Sábado: As mulheres só podem fazer as suas necessidades fisiológicas à noite porque não tem casa de banho em casa, nem tão pouco existem casas de banho públicas que possam frequentar. Assim, à noite juntam-se as mulheres em grupo, uma forma de se protegerem das violações, e vão fazer da rua a sua casa de banho.

Era contra isto que esta senhora protestava com o marido e por isso lhe movia um processo de separação em tribunal. Ganhou, e o homem foi mesmo obrigado a construir uma casa de banho. Será que passou a usá-la também? 

Os Jogos Olímpicos de 2004

Ainda na senda das condições higiénicas, foi por causa delas que Pequim perdeu a organização dos Jogos Olímpicos de 2004. Em 1993, quando foi apresentada a sua candidatura, apenas 30% das casas chinesas tinham casas de banho privativas. As casas de banho públicas eram a norma, mas como eram estas casas de banho públicas? Tratava-se de fossas abertas no chão, num aposento sem teto, rodeado de paredes sem divisórias e sem água corrente. Chamar a isto casa de banho é ser muito benevolente. Em resultado disto consta que o cheiro sobre Pequim, quando foi visitada pelos júris de apuramento da cidade aos Jogos Olímpicos, era nauseabundo e que no Verão, altura em que decorreriam os jogos seria muito pior.

Solução do governo chinês

O governo chinês foi sensível a estes avisos e determinou que em 2008 ninguém em Pequim estaria a menos de oito minutos a pé de uma retrete com autoclismo.

Também implementou uma obrigatoriedade de construção de casas de banho, aquando da construção da casa, para resolver esta situação.

Como reagiram os chineses às modernices?

Estranhamente, ou talvez não, a maior parte dos chineses entendeu este processo como puro gasto de dinheiro sem qualquer utilidade… um desperdício. Consta que a situação melhorou muito neste país em termos de salubridade, mas infelizmente conta-se como um dos países mais poluídos do mundo. Certamente a sua taxa de crescimento é conseguida por causa da indústria intensiva e sabe-se que não é possível ter este tipo de indústria sem uma grande contrapartida em termos de custos de poluição. O preço a pagar por taxas de crescimento enormes é grande…

Mais exemplos

Mas os exemplos culturais continuam: Os Masai, por exemplo, gostam de cobrir o cabelo com estrume de vaca.

A última esperança

Restava a esperança no cheiro a putrefação, que tem sido considerado um cheiro que deveria provocar um nojo inato nos humanos. No entanto, na Europa antes da refrigeração a carne e o peixe podre eram muitas vezes vendidos. Embora muitas receitas na altura oferecessem sugestões para disfarçar a carne estragada, usando ervas aromáticas por exemplo, os relatos mostram que muitas pessoas preferiam a carne pútrida, porque ao ser servida tinha um aroma mais forte e significasse por isso uma refeição mais robusta.  É daí o ditado  “Tapar o nariz e comer a perdiz”. Imaginar que um produto da nossa alimentação deve ser comido tapando o nariz mostra como lidamos com a carne putrefata.

Coloquemos a questão ao contrário: Haverá algum cheiro que todos nós gostemos?

Há! Neste caso a situação parece mais pacífica. Existe realmente um cheiro que todos (talvez seja exagero este termo todos, mas enfim) gostamos. Esse cheiro une-nos a todos porque está no leite humano com que somos alimentados logo à nascença. É o cheiro a baunilha. Pergunta o leitor: E quem não foi alimentado com leite humano e teve que ser alimentado com leite artificial perde este gosto?  A resposta é quase de certeza um não, porque os fabricantes de leite artificial usam a baunilha como seu componente de aroma, ou seja: os fabricantes de leite artificial tentam copiar o leite humano em tudo, até no cheiro.

Então podemos afirmar que todos gostamos do cheiro a baunilha com exceção de algum de nós que foi criado com leite artificial, sem este aditivo aromático. Não podemos excluir a possibilidade de algum comerciante de leite artificial estar menos atento e não replicar o cheiro do leite humano.

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